
Fissurómetro, pois sim! Alguém sabe o que é um Fissurómetro? E Ranhurómetro? Fendómetro? E porque não Rachurómetro?
Parece nome com origem na imaginação traquina de alguém apostado em convencer alguém, da existência de um objecto inexistente. Mas apesar da criatividade baptismal do inventor, o fissurómetro tem existência concreta: mede fendas, fissuras e mais não perguntem que temi averiguar.
Ao fissurómetro encontrei-o em preciosíssimo local mantido secreto durante séculos: no Criptopórtico Romano da Baixa de Lisboa. A entrada, ou melhor, o alçapão que lhe dá acesso é levantado apenas durante três dias por ano. No meio do alcatrão no centro da Rua da Conceição 30 pessoas desaparecem de 15 em 15 minutos para descerem ao interior húmido e quente destas ocultas galerias romanas, ombros de uma pequenina parte da cidade de Lisboa. Para que se possa entrar, bombeia-se sacrilegamente para a estrada, água que já foi santa. Se assim não fosse, alguns de nós ficariam submersos e a outros escapariam as cabeças, ombros e peito, dependendo da estatura com que a natureza beneficiou cada um. Para ser mais concreta e deixar-me de poesia «desinformativa» a água atingiria um metro e meio de altura dentro das catacumbas. O mais curioso é que, após descobertas estas galerias romanas, «graças» ao terramoto de 1755, alguns habitantes da Lisboa já no século XIX, lembraram-se de dar um uso mais pragmático a este património, abrindo uns buracos no criptopórtico para se abastecerem com a água, que sendo santa, haveria de perdoar. Mas apesar da existência dos fissurómetros, ainda não se concebeu até hoje, equipamento capaz de medir a santidade das águas, no entanto, a sacratíssima ciência por intermédio de apuradíssimas análises, obteve resultados que levam a crer na total ausência das propriedades curativas deste líquido, neste local. Apesar deste facto, a água continua a ser preciosa para a preservação da estrutura do criptopórtico, evitando-lhe contrair determinadas maleitas.
Mas voltando ao fissurómetro, que faz tão estranho objecto em tão recôndito local? Uma comprida fenda atravessa uma parte do criptopórtico. Com alguns metros quadrados da cidade a assentar em cima desta estrutura, e com o trânsito, incluindo os eléctricos a passarem diariamente sob o criptopórtico, é bom que não se abra repentinamente algum buraco no chão que engula alguns de nós, para além da perda do próprio património histórico. É para isto que existem os fissurómetros! Porque há fendas em constante avaliação, não sujeitas a orais nem testes americanos, mas levam uma vida de fenda sob exame contínuo. Se a fenda passar por bom comportamento, podemos ficar todos descansados. Se a fenda rachar, leva nota negativa por mau comportamento e fica o criptopórtico e o que está acima dele em maus lençóis. E por falar em mau comportamento, não deveria eu dedicar-me antes a publicar uns posts sobre as autárquicas? Não me parece, prefiro a solidez do criptopórtico e a fiabilidade do fissurómetro! E já agora, um sorriso de um polícia simpático, à saída das catacumbas romanas.